Problemas associados à perda auditiva induzida por ruído ocorrem desde a Idade Média, pois os trabalhadores que atuavam em funções como ferreiros e tocadores de sino, após alguns anos de trabalho acabavam surdos. Com o desenvolvimento industrial, o número de trabalhadores expostos a níveis de ruído elevados aumentou de forma significativa e, ao mesmo tempo, cresceu o número de pessoas expostas a ruídos tais como ruído de transporte e música intensa. Nas sociedades industrializadas atuais o risco da perda auditiva de origem ocupacional tem sido diminuído a partir de cuidados técnicos de proteção individual e/ou coletiva.Há uma preocupação entre as autoridades de saúde ocupacional em evitar que este tipo de perda auditiva ocorra nesta população.
Por outro lado, em muitos países, o risco de perda auditiva devido à exposição aos ruídos ambientais tem se tornado uma preocupação na área da saúde ambiental. As pesquisas têm mostrado que os ruídos da cidade podem ter efeitos adversos além da perda auditiva, entre eles pode-se observar problemas de comunicação inter pessoal, mudanças na performance e no comportamento, efeitos fisiológicos não auditivos, distúrbios de sono e irritação.
De acordo com as determinações do Ministério do Trabalho do Brasil, se um trabalhador é exposto a níveis de ruído excessivo, a empresa deve implementar e administrar um programa de prevenção da perda auditiva eficiente. As pesquisas têm mostrado que quando pessoas são expostas, de forma repetida, a níveis sonoros elevados sem o uso de proteção auditiva adequada, o resultado mais freqüente é uma perda auditiva induzida por ruído. Diversos estudos têm relatado que a prevalência deste tipo de perda entre crianças e adolescentes está aumentando (Woodford e O’Farrell,1983; Chermak e Peters-McCarthy, 1991; Montgomery e Fujikawa, 1992). Niskar et al (2001) estimaram que 12,5% de todas as crianças entre 6 e 19 anos de idade, nos Estados Unidos, apresentam mudanças de limiar auditivo , em uma ou ambas as orelhas, por conta da exposição ao ruído. Duran (2005), no Brasil,encontrou entalhe audiométrico em 8 (15,3%). Dentre os hábitos auditivos deste grupo encontrou que o uso do walkman + música mostrou ser o mais freqüente (51,9 %), sendo que 92,3% dos jovens estão expostos a esse hábito.
As possibilidades de usar máquinas, instrumentos, equipamentos muito potentes em atividades de lazer estão aumentando todo o tempo. Por exemplo, as corridas de carro, os veículos off-road, barcos a motor, jet ski, etc, todos podem contribuir de forma significante para o aumento dos níveis de pressão sonora em regiões consideradas silenciosas. Discotecas e concertos de rock podem exceder os níveis de risco para a audição tanto para músicos, como para os empregados do local, como para o público. Isto, muitas vezes, se aplica a concertos em áreas externas.A música intensa nas discotecas é uma ameaça às habilidades para ouvir. Após permanecer um longo período em uma discoteca ouvindo música muito intensa, é comum a pessoa sentirem zumbido ou outros tipos de problemas auditivos.
Um estudo publicado noAsia Pacific Journal of Public Health (2000) relatou os efeitos do nível de ruído/música sobre as habilidades auditivas de jovens com audição normal. O estudo foi realizado a partir de visitas a duas diferentes discotecas cujos níveis médios de som eram 108 dB(A) e 101 dB(A).
No grupo que freqüentou a discoteca mais ruidosa, 64% das pessoas apresentou algum tipo de zumbido, enquanto que o grupo que freqüentou a menos ruidosa, 32% apresentou zumbido após sua exposição.
Um estudo realizado na Inglaterra com 23 DJs mostrou que muitos dos DJs reclamam da música alta. Dezessete entre os 23 (17:23) apresentaram zumbido e 16 relataram perda auditiva temporária. Três DJs já mostravam perda auditiva permanente decorrente de exposição a ruído após anos de trabalho em ambiente com som excessivamente intenso. Na média, os DJs trabalhavam 1hora e 53 minutos sem pausa com níveis de ruído de 103,2 dB.
O uso continuado de sistemas de som portáteis (walkman, discman, MP3, iPod) também pode ser um fator que leva a alterações da função auditiva. Um estudo realizado na Escola Médica de Harvard mostrou que o uso dos fones do tipo inserção aumenta os níveis do som em 9 dB, quando comparados aos fones supra-aurais. Observa-se que os usuários deste tipo de equipamento não tem consciência da intensidade do som que estão ouvindo pois, usam estes equipamentos em ambientes com um certo grau de ruído o que os faz aumentar a intensidade para deixar de ouvir o ruído “mascarante” que está presente no ambiente. Em vista dos riscos auditivos que este tipo de equipamento pode trazer para seus usuários, a Apple lançou uma atualização do software de seus iPod para que estes possam fixar o limite máximo de volume de seus sistemas de som.
Sabemos que existem variações na suscetibilidade individual para a perda auditiva permanente causada por exposição repetida a ruído. Dentre os fatores que são citados na literatura encontramos a fadiga do reflexo acústico, as diferenças anatômicas nas estruturas da orelha média e interna, o estado funcional do sistema autônomo e ainda há á possibilidade de uma deficiência de vitamina B.
Outras questões importantes citadas na literatura estão relacionadas à exposição a sons ambientais, que mesmo que não sejam tão intensos também produzem efeitos adversos nas pessoas. Alterações de humor, dor de cabeça, irritação, aumento da agressividade, perda da capacidade de se concentrar e aprender, estão entre os tipos de efeitos que são relatados pelas pessoas expostas a sons que não são considerados perigosos para o sistema auditivo.
Ruídos presentes nas vizinhanças podem atrapalhar a criança a fazer sua leitura, suas tarefas de casa ou mesmo, dormir. (Bronzaft,1982) A grande intensidade dos ruídos que acontecem fora de casa, nas ruas, leva os moradores a elevar a intensidade das fontes de som que estão dentro de casa. O mesmo ocorre em locais onde ocorre a aprendizagem, ou onde as pessoas exercem suas atividades profissionais.
A habilidade para entender materiais isolados de fala que consistem de palavras isoladas ou de sentenças em um ambiente acústico com quantidades variáveis de ruído de fundo e reverberação tem sido muito estudadas em laboratórios e tem sido documentada na literatura para pessoas com audição normal e em pessoas com perda auditiva e em estudantes que aprendem o Inglês como segunda língua. Todos estes desafios auditivos existem na sala de aula de uma escola, exatamente no lugar em que o ambiente é o fator mais significante da comunicação oral. Martins (2005) mostrou que a relação sinal/ruído mais freqüente na sala de aula era de S/R + 16,5 dB(A), porém, o nível de ruído ambiental era 53,5 a 54,1 dB(A) (Leq) atingindo um nível máximo de 65,4 dB(A) . O índice de acertos, no teste de inteligibilidade de fala para palavras isoladas, foi de 76,3% de acerto. Isto quer dizer que no dia-a-dia, a criança não consegue reconhecer corretamente quase 25% do que a professora fala em sala de aula. Dreossi (2003) comprovou que crianças de 4a. série fundamental têm pior desempenho para reconhecer sentenças do que palavras quando estas são apresentadas em situação de ruído competitivo.
Níveis elevados de ruído reduzem a qualidade, a fidelidade e o número de conversações entre as pessoas. Como as crianças têm uma perda relativa em suas habilidades de linguagem pelo fato de não “dominarem” o significado das palavras e por isso não realizarem as deduções e inferências que o contexto lingüístico e ambiental carregam, podem ser menos aptas a “ouvir” a fala quando algumas das suas pistas são perdidas. Dreossi (2000) ao avaliar a habilidade de leitura de crianças da 4a. série do ensino fundamental em situação de silêncio e depois em presença de ruído mostrou que as crianças leram mais rápido, sem respeitar a pontuação, com maior número de erros na leitura e com maior dificuldade para interpretar o texto , quando a leitura ocorreu na situação competitiva (ruído de fundo a 70 dB (A).
. A presença de ruído pode competir com um número limitado de canais valiosos para a entrada da informação. Quando o sistema se encontra sobrecarregado de estímulos, a criança usará mais tempo para avaliar o estímulo que chega ou o risco de cometer erros. Johnson e Myklebust (1983) afirmaram que quando o sistema nervoso central recebe muitos estímulos ao mesmo tempo, pode se tornar refratário a todos e não processar nenhum deles. O ambiente escolar ou doméstico onde a criança estuda pode ser um ambiente refratário, pois, soma inúmeros estímulos concorrentes: música, TV, video-games, crianças brincando no play-ground embaixo da janela da sua sala de aula ou de estudo.Como garantir a atenção da criança na tarefa escolar e na fala da professora se, o mundo que a cerca é tão ruidoso e estimulador?
Embora haja pouca evidência laboratorial para substanciar a degradação do desempenho das crianças existem estudos de campo que demonstram que os níveis mais altos de ruído têm sido correlacionados com mau desempenho nos testes de leitura e nos testes de discriminação auditiva.
Bibliografia
Berglund,B e Lindvall,T - Community Noise, Stockholm, Sweden, 1995. Editor's Note: This document was published by the World Health Organization (WHO) and placed on this website with permission from the WHO. NPC acknowledges that the WHO holds the copyright to this document.
Bronzaft, A.L. "The effect of a noise abatement program on reading ability", J. Environmental Psychology, 1, 215-222 16. 1982
Chermak GD, Peters-McCarthy E. The effectiveness of an educational hearing conservation program for elementary school children. Lang Speech Hearing Services in Schools;22:308-312, 1991
Crocker, M. J.editor -Handbook of Acoustics; John Wiley and Sons, New York, 1998.
Dreossi, RCF - Ruído e reconhecimento de fala em crianças da 4a. série do ensino fundamental Dissertação (Mestrado em Fonoaudiologia) - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, . 2003.
Dreossi. RCF - A interferência do ruído sobre a leitura e a aprendizagem. Monografia. (Aperfeiçoamento/Especialização em Audiologia) - Centro de Estudos dos Distúrbios da Audição. 2000.
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Johnson,D e Myklebust,H - Distúrbios de Aprendizagem. São Paulo, ED. Record. 1983
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Woodford CM, O’Farrell ML. - High-frequency loss of hearing in secondary school students: an investigation of possible etiologic factors. Language, Speech, and Hearing Services in Schools;14:22-28. 1983.
Autora: Prof.ª Dr.ª Teresa Maria Momensohn-Santos, Professora titular do depto de clínica fonoaudiológica PUC São Paulo, Diretora do IEAA – Instituto de Estudos da Audição